A minha participação no projeto foi atravessada por uma profundidade significativa. Ao longo das aulas e encontros com os alunos, foi possível compreender a literatura não só como instrumento pedagógico, mas também como uma ferramenta de expressão, pertencimento, escuta e construção crítica de si e da realidade. Dessa forma, posso afirmar que minha experiência me mudou como profissional, como graduanda e principalmente como humana.
O contato com a turma 1804, da Escola Municipal Professor Walter Carlos de Magalhães Fraenkel, permitiu perceber como o acesso à literatura, especialmente em territórios periféricos, ainda é marcado por desigualdades sociais, culturais e educacionais. Muitos alunos chegaram aos nossos encontros carregando a ideia de que leitura e escrita são algo muito distante de suas vivências, limitada ao ambiente tradicional, linguagem culta ou frequentemente associada à obrigação. No entanto, ao longo das atividades foi possível observar mudanças significativas na forma como esses jovens passaram a se relacionar com os textos, com a oralidade e com suas próprias narrativas.
As aulas demonstraram como a literatura pode se transformar em um espaço de identificação e reconhecimento. Quando os estudantes se sentem ouvidos e percebem que sua opinião e suas vivências são ouvidas e levadas em consideração, percebem que também podem dialogar com estruturas e textos literários, fazendo com que a leitura deixe de ser apenas uma atividade escolar e passe a ocupar um lugar de reflexão crítica sobre o mundo e sobre si mesmos.
Nesse sentido, o projeto contribui para a formação de indivíduos críticos, ao incentivar a interpretação, o questionamento, a troca de ideias e a valorização de diferentes formas de pensar e existir, presentes dentro e fora da literatura.
Além disso, o projeto evidencia a importância de iniciativas culturais e educacionais em espaços periféricos. Em uma sociedade marcada por desigualdades estruturais, projetos como o Literatura Preta possibilitam o acesso à cultura e formação de maneira mais democrática, fortalecendo vínculos comunitários e ampliando horizontes para os participantes. A literatura, nesse contexto, torna-se também um ato de resistência e afirmação.
Falando sobre a minha formação, como futura pedagoga, essa experiência foi essencial. Estar em contato direto com a sala de aula, me permitiu compreender na prática que a educação acontece nas relações, no afeto, na escuta e na construção coletiva do conhecimento. Arrisco em dizer que eu aprendi tanto com eles, quanto eles conosco. Mais do que transmitir conteúdos, educar envolve criar possibilidades para que sujeitos se reconheçam como capazes de pensar, interpretar e transformar realidades.
O projeto também reforçou em mim a importância de uma educação mais humana, sensível e crítica às vivências dos estudantes. Como educadora em formação, posso dizer que o projeto ampliou minha percepção sobre o papel social da escola, da leitura e do educador, fortalecendo meu compromisso com as práticas pedagógicas focadas em valorizar a autonomia, afetividade, cultura e a voz dos alunos como agentes ativos em sua trajetória de aprendizagem.
Assim, participar do Projeto Literatura e Música Preta, conhecer o território do Caju, o Slam e tantas outras experiências, foi não só acompanhar a formação de leitores, mas também transformou minha própria compreensão sobre educação, literatura e pertencimento.
Anna Beatriz do Nascimento Figueira
Graduanda em Pedagogia
Projeto Literatura e Música Preta Polo Caju
28 de Maio de 2026




